{"id":26047,"date":"2021-09-02T20:03:53","date_gmt":"2021-09-02T23:03:53","guid":{"rendered":"https:\/\/pinews.com.br\/?p=26047"},"modified":"2021-09-02T20:03:53","modified_gmt":"2021-09-02T23:03:53","slug":"enem-2021-e-o-mais-branco-e-elitista-da-decada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pinews.com.br\/index.php\/2021\/09\/02\/enem-2021-e-o-mais-branco-e-elitista-da-decada\/","title":{"rendered":"Enem 2021 \u00e9 o mais branco e elitista da d\u00e9cada"},"content":{"rendered":"\n<p>O governo Jair Bolsonaro (sem partido) vai realizar neste ano o Enem (Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio) com a menor propor\u00e7\u00e3o de inscritos pretos, pardos e ind\u00edgenas dos \u00faltimos dez anos. A prova tamb\u00e9m ter\u00e1 a menor participa\u00e7\u00e3o de candidatos com isen\u00e7\u00e3o de taxa, ou seja, aqueles com renda familiar de at\u00e9 1,5 sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/p>\n\n\n\n<p>Com isso, o Enem 2021 rompe uma trajet\u00f3ria de inclus\u00e3o de estudantes negros e mais pobres. Desde 2009, as inscri\u00e7\u00f5es mostravam aumento da participa\u00e7\u00e3o desses grupos na prova, que \u00e9 a principal porta de acesso ao ensino superior no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>A edi\u00e7\u00e3o deste ano recebeu o menor n\u00famero de inscri\u00e7\u00f5es dos \u00faltimos 14 anos. A prova, que j\u00e1 teve mais de 8,7 milh\u00f5es de inscritos, teve em 2021 apenas 3,1 milh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A queda nas inscri\u00e7\u00f5es \u00e9 reflexo da decis\u00e3o do governo Bolsonaro de retirar a isen\u00e7\u00e3o de taxa de quem faltou na \u00faltima edi\u00e7\u00e3o da prova, feita em um dos momentos de maior pico da pandemia no Brasil. O tema foi parar no STF (Supremo Tribunal Federal).<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados mostram que a redu\u00e7\u00e3o \u00e9 puxada principalmente pela exclus\u00e3o de estudantes negros e pobres.<\/p>\n\n\n\n<p>Um levantamento feito pelo Semesp (Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior) mostra que 11,7% dos inscritos para o Enem 2021 s\u00e3o pretos. \u00c9 a menor propor\u00e7\u00e3o desde 2009, quando eles representaram 6,3% dos inscritos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em n\u00fameros absolutos, a prova chegou a ter mais de 1,1 milh\u00e3o de inscritos pretos em 2016. Em 2021, eles ser\u00e3o apenas 362,3 mil.<\/p>\n\n\n\n<p>Os pardos ser\u00e3o 42,2% dos participantes da pr\u00f3xima prova. \u00c9 o menor percentual desde 2012, quando eles foram 41,4% do total. S\u00e3o cerca de 1,3 milh\u00e3o de alunos pardos neste ano, um grupo que j\u00e1 ultrapassou 4 milh\u00f5es de inscritos -mais do que o total de registros para a prova deste ano.<\/p>\n\n\n\n<p>A redu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 expressiva entre os estudantes mais pobres. O n\u00famero de inscritos com isen\u00e7\u00e3o da taxa por declara\u00e7\u00e3o de car\u00eancia caiu 77% em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00faltima prova.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 26,5% das pessoas que v\u00e3o fazer o Enem 2021 conseguiram a inscri\u00e7\u00e3o gratuita por terem tido a situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade financeira aprovada. T\u00eam direito \u00e0 isen\u00e7\u00e3o aqueles que cursaram o ensino m\u00e9dio em escola p\u00fablica e t\u00eam renda familiar inferior a 1,5 sal\u00e1rio m\u00ednimo ou que est\u00e3o inscritos no Cad\u00danico. Na edi\u00e7\u00e3o anterior, esse grupo representava 63% de todos os inscritos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao todo, s\u00f3 822,8 mil conseguiram a gratuidade por vulnerabilidade financeira. \u00c9 o menor n\u00famero de beneficiados desde 2017 -\u00faltimo ano em que esse dado est\u00e1 dispon\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m houve queda de inscri\u00e7\u00e3o de 20,8% dos que t\u00eam direito autom\u00e1tico \u00e0 isen\u00e7\u00e3o por ter cursado o ensino m\u00e9dio em escola p\u00fablica. S\u00f3 910 mil inscritos receberam a gratuidade, menor n\u00famero desde 2017.<\/p>\n\n\n\n<p>A diarista Ilma Brito, 36, foi uma das que perderam o direito de isen\u00e7\u00e3o por ter faltado na \u00faltima edi\u00e7\u00e3o. Ela conta que foi fazer a prova, mas encontrou a sala superlotada.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu queria tentar porque \u00e9 meu sonho entrar em uma universidade, mas fiquei com medo. As salas estavam tumultuadas, cheias de gente. Eu s\u00f3 pensava que n\u00e3o podia correr o risco de levar Covid pra dentro da minha casa, meu filho tem bronquite.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3e de dois meninos, de 11 e 6 anos de idade, ela \u00e9 a \u00fanica fonte de renda da fam\u00edlia. H\u00e1 anos ela estuda para entrar em uma faculdade para conseguir um emprego com sal\u00e1rio melhor. &#8220;S\u00f3 vejo um futuro melhor se eu puder estudar.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela conta que pensou em pagar a taxa de inscri\u00e7\u00e3o de R$ 85 quando teve o benef\u00edcio negado, mas n\u00e3o teve condi\u00e7\u00f5es de arcar com a despesa. &#8220;\u00c9 o valor de uma compra de mercado. \u00c9 quase o valor que eu recebo por uma di\u00e1ria de trabalho.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Jhady Santos, 19, tamb\u00e9m teve o benef\u00edcio negado neste ano. Ela sempre estudou em escola p\u00fablica e se preparava para mais uma vez tentar uma vaga em administra\u00e7\u00e3o. &#8220;\u00c9 um sonho que vai ficando cada vez mais longe&#8221;, diz a jovem, que come\u00e7ou a trabalhar na pandemia para ajudar os pais.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde junho, quando o edital do Enem 2021 foi publicado, com a regra que retirava a isen\u00e7\u00e3o dos faltosos, entidades e especialistas alertavam para a exclus\u00e3o dos estudantes mais pobres.<\/p>\n\n\n\n<p>A Defensoria P\u00fablica ingressou com a\u00e7\u00e3o judicial e um projeto de lei chegou a ser apresentado na C\u00e2mara para garantir esse direito. O governo Bolsonaro, no entanto, conseguiu na Justi\u00e7a manter o veto de gratuidade da taxa aos faltosos.<\/p>\n\n\n\n<p>O ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Milton Ribeiro, justificou a retirada da isen\u00e7\u00e3o pela economia de recursos. Segundo ele, a pasta n\u00e3o pode arcar com os custos da prova de quem faltou anteriormente.<\/p>\n\n\n\n<p>Entidades estudantis pediram para o STF (Supremo Tribunal Federal) determinar a reabertura das inscri\u00e7\u00f5es do Enem com isen\u00e7\u00e3o aos ausentes.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O minist\u00e9rio sabia que manter essa regra iria resultar na exclus\u00e3o dos mais pobres e, ainda assim, decidiu mant\u00ea-la. Por isso, esperamos que a justi\u00e7a possa intervir e reverter essa situa\u00e7\u00e3o cruel&#8221;, diz Frei David, presidente da Educafro, uma das entidades que ingressaram com a a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ele, a exclus\u00e3o dos alunos pobres e negros faz parte da pol\u00edtica do governo Bolsonaro de n\u00e3o garantir o acesso ao ensino superior. Em agosto, o ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Milton Ribeiro, afirmou que as universidades devem ser para poucos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O ministro conduz com maestria a pol\u00edtica que defende, a de excluir pobres e negros. Eles querem que a universidade seja para poucos e o Enem deste ano \u00e9 o primeiro passo para esse objetivo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Rodrigo Capelato, diretor-executivo do Semesp, diz que os dados de inscritos mostram um retrocesso hist\u00f3rico no Enem. Quando o exame se transformou em vestibular nacional em 2008, tinha como objetivo facilitar o acesso ao ensino superior.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A participa\u00e7\u00e3o dos estudantes historicamente mais exclu\u00eddos vinha aumentando ano a ano, ainda que em um ritmo aqu\u00e9m do necess\u00e1rio. Agora, depois de dez anos de crescimento, temos um enorme retrocesso.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de selecionar estudantes para as universidades p\u00fablicas do pa\u00eds, o Enem tamb\u00e9m \u00e9 crit\u00e9rio de acesso a bolsas do ProUni (Programa Universidade para Todos) e Fies (Financiamento Estudantil) em faculdades particulares.<\/p>\n\n\n\n<p>Criadora do Enem, Maria In\u00eas Fini diz que a retirada da isen\u00e7\u00e3o para quem faltou durante a pandemia \u00e9 uma &#8220;puni\u00e7\u00e3o cruel&#8221; aos estudantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2018, quando foi presidente do Inep, \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel pela realiza\u00e7\u00e3o da prova, Fini criou a regra que retirava a isen\u00e7\u00e3o para quem faltou na edi\u00e7\u00e3o anterior sem apresentar justificativa.&nbsp;<br>Apesar de ter estabelecido a regra, ela diz que a medida deveria ter sido suspensa neste ano.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A regra foi criada para evitar o desperd\u00edcio de dinheiro p\u00fablico, dando a chance para que o aluno justificasse a sua aus\u00eancia. Mas em um momento de pandemia n\u00e3o h\u00e1 como se exigir um documento que justifique o medo de adoecer, de contaminar os familiares.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Manter a regra nessas circunst\u00e2ncias \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o de total incompreens\u00e3o sobre a import\u00e2ncia do Enem. \u00c9 falta de solidariedade, de compaix\u00e3o&#8221;, completa.<\/p>\n\n\n\n<p>A Folha questionou MEC e Inep sobre os dados de inscri\u00e7\u00e3o e a possibilidade de rever a retirada de isen\u00e7\u00e3o dos candidatos. A pasta n\u00e3o respondeu.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fonte: Folhapress<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O governo Jair Bolsonaro (sem partido) vai realizar neste ano o Enem (Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio) com a menor propor\u00e7\u00e3o de inscritos pretos, pardos e ind\u00edgenas dos \u00faltimos dez anos. 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